sexta-feira, 18 de maio de 2012

2012 - Ano Clariano

Em 2012 comemoramos os 800 anos do Carisma Clariano. O franciscanismo poderia muito bem viver sem Clara, mas não seria o mesmo! Clara foi a parte contemplativa e reclusa do ideal de Francisco, de fazer do mundo um Grande Convento e pregar Jesus e  sua vida a todos os seres, que são seus irmãos.

Clara foi amiga de Francisco como todos já sabem. Muitos dizem que havia um "amor platônico", um romance.... quanta bobagem e pobreza de espírito! O amor platônico supõe o desejo sexual, o amor erótico, só que vivido apenas no plano das idéias, da fantasia. O amor espiritual, não. Ele passa por outras vertentes, é o querer bem, ver a vida como o outro a vê, olhar na mesma direção, se entender sem precisar de palavras.

Entre Clara e Francisco havia um forte vínculo humano, mas de tipo paterno e filial e não esponsal. Francisco chamava Clara de "plantinha" e Clara o chamava de "nosso pai". Assim foi o amor de Clara e Francisco, eles olhavam na mesma direção, olhavam para Deus, para Jesus Cristo, horizonte de tudo o que existe.

Frei Raniero Cantalamessa citou a cena da Série "Francisco e Clara" que foi exibida na Rai Uno (TV italiana) como a síntese de toda a relação entre Clara e Francisco e sentido do carisma de nossa família franciscana:

"Francisco caminha em um prado, Clara o segue introduzindo seus pés, quase brincando, nas pegadas que Francisco deixa e, diante da pergunta dele: 'Estás seguindo minhas pegadas?' responde luminosa: 'Não, outras muito mais profundas'.

CLARA DE ASSIS, UTOPIA FECUNDA NO PRESENTE
Pessoas sem projetos, sem sonhos, sem utopias, nada construirão absolutamente. Os sonhos são decisivos para a mudança de uma realidade pessoal ou social.
Cultivar uma utopia é sempre caminhar para frente. CLARA DE ASSIS foi na sua história, fonte generosa de uma grande utopia esta só motiva quando desce ao coração
tornando-se força motriz de transformações.
Nosso presente carece de utopias... quem será capaz de captar as angústias e esperanças de tantos homens e mulheres e dar-lhes uma resposta?
Essa jovem mulher distante de nós no tempo se agiganta à nossa frente como capacidade criadora, capaz de transmitir espírito e a contagiar simpatia e sã alegria. Sua vida foi e continua sendo uma resposta de liberdade, profundidade e vida.
Nesse mundo tão cheio de desigualdades e desequilíbrios, com seus ídolos, com sua escalada de violência, tão longe da paz e de Deus, o rosto de Clara é uma luz a iluminar os direitos fundamentais da pessoa humana avançando sempre mais na criação e ampliação de novos espaços.
Nela a UTOPIA superou a desintegração e realizou a integridade.
Nela não deixou morrer a seiva da liberdade, criatividade, ousadia e profetismo.
Nela deixa a "estrada oficial" para caminhar na contramão da história.
Nela desinstala-se e põe-se a caminho para servir à vida.
Nela rompe o silêncio da vida fácil para viver a experiência da solidariedade.
Nela encontra a "perfeita alegria" no dom de oferecer a própria vida.
Nele põe-se a caminho rumo a novos horizontes.
Nela mantém viva a esperança que dá sentido á vida.
Nela a utopia evangélica teve lugar.
Nela tornou real a fraternidade franciscana estar verdadeiramente a serviço da autoridade.
Nela a liberdade pessoal contrastou com o sistema social vigente.
Nela sempre esteve a caminho rumo à meta de seu ideal.
Nela encontrou espaço para colocar tudo em comum, sobretudo a própria vocação, o projeto evangélico e a própria liberdade.
Nela tornou concreta e verdadeira a renúncia a qualquer tipo de posse.
Nela foi possível a "santa simplicidade"se tornar um modo de existir.
Nela a nupcialidade foi vivida nas dimensões materna e "sorelal".
Nela a experiência contemplativa tornou-se relação vital e concreta.
Nela o Cristo Jesus é "o mais belo entre os filhos dos homens".
Nela "irmã morte" tornou-se um encontro e uma nova possibilidade.
(Ir. Maria Vilani Rocha de Oliveira, FHIC)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

18 de maio - dia de Frei Félix de Cantalício - o santo da humildade

São Félix de Cantalício - religioso

O Santo das ruas de Roma, assim foi chamado São Félix de Cantalício, capuchinho. Nascido no minúsculo centro agrícola de Cantalício (Rieti) em 1515, Félix Porro, de Santo e Santa. Entrou para os capuchinhos nos fins de 1543 e início de 1544 e, completo o ano de noviciado no convento de Antícoli (hoje Foggia), a 18 de maio de 1545 emitiu a profissão dos votos religiosos no conventinho de Monte São João, onde ainda hoje se conserva o seu testamento escrito a 12 de abril de 1545. Ele pertence à primeira geração dos Capuchinhos. Félix se fez frade logo depois da saída de Bernardino Ochino (maio de 1542), quando os pobres capuchinhos foram incriminados publicamente como hereges, e tudo fazia crer que seriam supressos. Convidado por um seu primo agostiniano a segui-lo passando para a sua ordem, Frei Félix respondeu que, se não pudesse continuar sendo frade capuchinho, preferiria permanecer no mundo. Não obstante as perseguições e calúnias a Reforma Capuchinha era altamente estimada.

Frei Félix era admirado por todos, inclusive cardeais e papas. Certa vez, em Trindade dos Montes, o papa Sisto V encontra Frei Félix e pede-lhe um pão. O esmoler procura no alforge, a fim de escolher o melhor. "Não escolhas, Frei Félix, dá-me aquele que pegar primeiro". E saiu um pão duro e negro. "Santo Padre, não foi de propósito; tenha paciência e lembra-te que ainda és frade". Sisto V, querendo abreviar os tempos da canonização de Frei Félix, se dizia pronto a confirmar o processo com juramento.

Das coisas maravilhosas atribuídas a Frei Félix ainda vivo, testemunhará quase só gente estranha à Ordem: os frades, ou as ignoravam ou não julgavam oportuno recontá-las.  De fato, depois de ter passado os primeiros quatro anos da sua vida religiosa nos conventos de Antícoli, Monte São João, Tívoli e Palanzana (Viterbo), passou o resto de seus dias em Roma (1547/1587) onde, diariamente, mendigou antes o pão (até 1572) e depois, até à morte, vinho e óleo para os seus frades. Os Capuchinhos que viveram dia a dia com ele, o tinham como um bom religioso como tantos outros, e por isso ficaram apavorados quando viram a interminável procissão de gente que acorria para venerar o seu cadáver e que juntamente com o para Sisto V proclamava os seus milagres e a sua santidade.

Frei Félix levou à perfeição aquilo que as constituições prescreviam, não servilmente mas na liberdade do seu carisma, vivendo no convento principal da ordem, em Roma, sede do vigário Geral. Muitos frades ilustres o conheceram especialmente por ocasião dos capítulos gerais.

O povo de Roma o tinha em alta estima e venerava-o com o mesmo carinho com que venerava outro grande santo daquela época, São Felipe Néri. Entre os dois surgiram competições de humildade: um, em público, bebia da garrafa do fradinho; outro levava pela cidade o barrete do Padre. Cada um queria ajoelhar-se diante do outro mas nenhum deles cedia. Acabavam por se abraçar e, levantando-se, separavam-se em silêncio. Era tão forte e sublime aquela amizade que, para se identificarem com Cristo, se auguravam as penas mais atrozes. Um dizia: "que eu te possa ver queimado vivo"; outro dizia: "que eu te possa ver retalhado em quatro". E assim por diante.


Seria necessário conhecer melhor o influxo (não oficial, mas carismático e real) por ele exercido na vida e na história da Ordem Capuchinha, no campo da perfeição religiosa e da santidade. Não falta material para descobrir os canais e as formas de tal influxo. Basta ver a grande difusão das suas imagens, relíquias, culto, fórmulas particulares de oração e, aquilo que mais conta, o empenho de imitá-lo especialmente da parte dos irmãos não clérigos Capuchinhos, alguns dos quais estão numerados nas listas dos beatos e santos. É certo que, entre os Capuchinhos, Frei Félix de Cantalício foi o Santo mais amado e seguido como modelo: em 1650, entre os 11.000 Capuchinhos da Itália, 277 se chamavam Félix e, até 1966, o necrológio da Província de Roma registra 217 frades que tinham o mesmo nome, Félix.

Entretanto, os 72 anos já lhe pesam. Ansiava ardentemente a paz do céu. Neste sentido fizera saber aos frades de que a sua partida não tardaria muito. Há oito anos que sofria horrivelmente dos intestinos, cujas dores se agravaram em 1587. Eis a conclusão de uma inocentíssima vida. Eram 11 horas da noite, do segundo dia de Pentecostes, 18 de maio de 1587. Toda cidade de Roma compareceu aos funerais. Os milagres multiplicaram-se sobre o seu sepulcro.

(Frei Eurípedes Otoni da Silva - OFMCap.)

Oração:

Ò Deus, que destes à família seráfica e à Igreja São Félix, exemplo de simplicidade evangélica e de inocência de vida, concedei que, seguindo os seus passos, cuidamos de amar somente a Cristo e de segui-lo com alegria. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, Nosso Irmão, na unidade do Espírito Santo. Amém.



In Memoriam

Na cidade de Assis, "il Poverello"
Santo, três vezes santo, andou pregando
Que o sol, a terra, a flor, o rocio brando,

Da pobreza o tristíssimo flagelo,
tudo quanto há de vil, quanto há de belo,
tudo era nosso irmão! _ E assim sonhando,

Pelas estradas da Umbria foi forjando
Da cadeia do amor, o maior elo!

'Olha nosso irmão Sol, nossa irmã Água...'

Ah! Poverello! Em mim essa lição
Perdeu-se como vela em mar de mágoa
Batida por furiosos vendavais!

Eu fui na vida a irmã de um só Irmão,
E já não sou a irmã de ninguém mais!

(Florbela Espanca)


Paz e Bem !!!

A saudação de Paz e Bem 
A saudação franciscana de "Paz e Bem" tem sua origem na descoberta e na vocação do envio dos discípulos, que São Francisco descobriu no Evangelho e, que ele colocou na Regra dos Frades Menores – "o modo de ir pelo mundo". Lucas (10,5) fala na saudação "A paz esteja nesta casa", e Francisco acrescenta que a saudação deve ser dada a todas as pessoas que os frades encontrarem pelo caminho: "O Senhor vos dê a paz".
No seu Testamento, Francisco revela que recebeu do Senhor mesmo esta saudação. Portanto, ela faz parte de sua inspiração original de vida: anunciar a paz. Muito antes de São Francisco, o Mestre Rufino (bispo de Assis, na época em que Francisco nasceu), já escrevera um tratado, "De Bono Pacis" – "O Bem da paz" e, que certamente deve ter influenciado a mística da paz na região de Assis. Haviam, então, diferentes formas de saudação da paz, entre elas a de "Paz e Bem".

A paz interior como fundamento da paz exterior
Na Legenda dos três companheiros (58), São Francisco dá para seus frades, o significado único para a paz:
"A paz que anunciais com a boca, mais deveis tê-la em vossos corações. Ninguém seja por vós provocado à ira ou ao escândalo, mas todos por vossa mansidão sejam levados à paz, a benignidade e à concórdia. Pois é para isso que fomos chamados: para curar os feridos, reanimar os abatidos e trazer de volta os que estão no erro".
Trata-se da paz do coração que conquistaram. Francisco exorta seus frades a anunciar a paz e a testemunhá-la com doçura, porque este é o único caminho de comunicação para atrair todos os homens para a verdadeira paz, a bondade e a concórdia e tem o objetivo de abrir os corações à paz, isto é, à força espiritual interior: a paz interior da bem-aventurança e a paz proclamada e dirigida a todos, constituem uma única e mesma realidade.

O Bem da paz – o "Sumo Bem"
Deus Sumo Bem é a experiência fundamental de Francisco, o ponto de partida de sua espiritualidade. Nela se fundamenta a vida franciscana como resposta de amor, configurando o amado ao Amor. Portanto, "Bem" é Deus-Amor, é a caridade.
E é justamente este o sentido da resposta humana, a da conversão ao Bem, ao "Sumo Bem": aceitar Deus como centro absoluto da própria existência, e inserir-se no seu projeto tornando-se seu colaborador. Desta experiência nasce a "doçura", que enche a vida de Francisco, a sua necessidade de entregar tudo a Deus (pobreza), de render-lhe graças e louvá-lo sem cessar. Desta experiência nasce também a confiança de tudo arriscar, sabendo que Deus não o deixará desamparado.

"Paz e Bem" – A paz se constrói pela caridade
Portanto, a saudação franciscana de "Paz e Bem" é um programa de vida, é uma forma evangélica de viver o espírito das bem-aventuranças. Nestas duas ‘pequenas’ palavras se esconde um dinamismo e uma provocação: saudar alguém com "Paz e Bem" é o mesmo que dizer: o amor de Deus que trago em meu ser, é a mesma pessoa que reconheço nos outros e no mundo e, por causa d’Ele, devemos viver a caridade – o Bem – entre nós.
A caridade vivifica os membros de Cristo, os une e os faz estar em harmonia num só corpo. Ela é como um cabo, em cuja parte superior foi aplicado um gancho que liga a divindade à humanidade, o cordão que o senhor colocou na terra e com o qual ergueu o homem para o céu".
(Mestre Rufino)